Africa em preto e branco

Quem viaja a Africa do Sul, dificilmente pode imaginar que, ha pouco mais de uma decada, o pais vivia sob um regime opressivo, discriminatorio e injusto. Quer dizer, os negros e asiaticos da regiao, na medida em que os brancos ditavam as regras e condenavam grande parte da populaçao a uma existencia pobre e desumana.
Em 1948, com a ascensao do Partido Nacional, apareceu o regime do Apartheid com toda a sua crueldade. Ninguem mais podia se misturar. Os assentos dianteiros dos onibus eram reservados aos brancos. Na zona central e nos bairros mais nobres, negro so podia frequentar com a devida justificativa. Ate havia espioes que, de um predio vizinho, cuidavam dia e noite das atividades intimas dos sul-africanos, pois os desejos carnais so podiam ser satisfeitos com gente da mesma raça, sob pena de arcar com graves consequencias.
Soweto, cidade vizinha a Johanesburgo, foi o grande foco de resistencia e revolta contra os ditames do Partido Nacional. Em junho de 1976, 67 estudantes perderam a vida por protestar contra o ensino obrigatorio do Afrikaan nas escolas, lingua derivada do holandes e imposta por uma classe dominante e mesquinha. Neste centro de efervecencia e intensa mobilizaçao social, apareceu a notavel figura de Nelson Mandela.
Em 64, foi preso, acusado de cometer atos terroristas contra o Governo. Levaram-no a Robben Island, uma ilhota situada a 10 kilometros da Cidade do Cabo. Aih, durante quase duas decadas, fez-se de tudo para enlouquecer aquele homem. Na maior parte do tempo, ficava isolado em uma pequenissima cela, terminantemente proibido de conversar com outros presos. Ao longo do dia, era orientado a sentar sob um sol incansavel e quebrar pedras, uma, duas, tres, quantas houvesse. Nas noites frias da ilha, tinha direito a apenas um cobertor.
No entanto, ao contrario de todas as expectativas, durante os 27 anos em que esteve numa cela, Mandela cometeu o ato mais atrevido e ousado que alguem pode fazer: pensar. Ele se deu conta de que, mais cedo ou mais tarde, aquele quadro tao absurdo e inexplicavel teria que mudar. E entao, com o poder da palavra, com a força de um espirito nobre e sensivel, sua luta começou a dar os primeiros resultados. Seus carcereiros, instruidos a ser brutos e firmes com aquele prisioneiro - numero 466/64 - foram sensibilizados por seu enorme poder de oraçao e sua fe cega em dias melhores. Muitos deles viraram seus grandes amigos.
Aos poucos, a comunidade internacional foi percebendo a grandeza da sua causa e o brilho de um cidadao que unicamente exigia o direito de ter uma patria livre e igualitaria. Seu livro mais marcante, Longo caminho para a liberdade, fois escrito nessa epoca, na severidade e solidao de um presidio. Em 1990, Mandela foi libertado e, quatro anos depois, eleito o primeiro presidente pos-Apartheid pelo Congresso Nacional Africano, seu partido.
Hoje, a Africa do Sul ostenta uma das mais solidas e belas democracias do planeta. O pais esta aberto aos investimentos externos e cresce com firmeza. Começa a aparecer uma classe media negra, com forte poder de decisao e consumo. Nelson Mandela, em 2008, completara 90 anos. Esta afastado da politica, vivendo entre sua Africa e o vizinho Moçambique, de onde descende sua atual mulher. Trata-se de um cancer com a mesma vibraçao e energia com que lutou pela sua liberdade e a de seu povo. Eh um mito vivo, um monumento cultuado por brancos e negros, jovens e velhos, sul-africanos e gente de todos os cantos do mundo.
Vida longa a este homem tao fabuloso e necessario, especialmente neste começo de seculo confuso, equivocado e assustador.
Guilherme

2 Comments:
Bom saber que a situação atual da Áfricado Sul é assim, realmente. Vc já leu (provavelmente) Eduardo Galeano? Ultimamente ando louca com ele, lendo tudo que posso e acho que, até pelo q vc escreve, tb ia gostar bastante. Beijos
Bom saber que a situação atual da Áfricado Sul é assim, realmente. Vc já leu (provavelmente) Eduardo Galeano? Ultimamente ando louca com ele, lendo tudo que posso e acho que, até pelo q vc escreve, tb ia gostar bastante. Beijos
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